#UX e #HCI dizem ao computador: ajudem-nos, não nos aprisione
Em sua fantástica obra, Vilém Flusser aborda dentre diversos outros temas densos, a dinâmica das cidades em função das relações entre o homem e as máquinas. Ele explica de maneira sensacional o ciclo de mobilidade da humanidade, à medida que aperfeiçoa os artefatos que acompanham a sua evolução.
Durante à pré-história, o homem safava-se dos problemas da sobrevivência com ferramentas que pudesse levar consigo. Quando consolidou a agricultura, em grande parte, fixou suas raízes às margens de rios para produção de vegetais, e cultura de animais domesticáveis. Mesmo assim, quando sazonalidades rigorozas o aflingia, ainda levava suas ferramentas, naquele momento mais sofisticadas como carroças e canoas, além de seus já dominados rebanhos.
Ferramentas do Neolítico: parte da história da mobilidade
A partir do século XVII, com a ascensão da indústria, máquinas maiores e pesadas fizeram do homem circunvizinhos de suas criações. Elas o atraia como fonte de sobrevivência: vir para perto das máquinas era, e é ainda em grande parte, o único meio de viver dignamente.Mesmo vivendo em um contexto muito mais complexo que aquele de milhares de anos atrás, podemos novamente levar nossas ferramentas, instrumentos da sobrevivência, para qualquer lugar e usufruirmos novamente da pré-histórica mobilidade. Os elos físicos com os lugares são agora as ondas eletromagnéticas, por onde os volumosos fluxos de dados das redes trafegam, e nos levam para onde desejamos ir, como projeções.
A computação ubíqua, assunto tão falado nos dias de hoje, e que se projeta como um dos mais promissores horizontes para o profissional de design de interação, traz à tona, como nunca, questões básicas do processo de Interação Homem-Computador: o fim do ciclo da mobilidade para o ciclo de circunvizinhança, e delicados tópicos sobre a automação.
Diferente das análises de tarefas ( bem diferentes ), muito associadas aos testes de usabilidade, a alocação de tarefa, tema clássico em HCI, é algo que devemos nos preocupar ao definir ou compreender qual será o papel de cada dos atores na relação homem-computador. O senso comum nos conduz ao entendimento de que há coisas que as máquinas fazem e outras que nós fazemos, devido às limitações respectivas de cada um.
Uma das formas mais interessantes de compreender isso é comparando alguns dos mais relevantes princípios da automação:
No futuro, quando estivermos em nossas casas, trabalho e…em todo lugar, máquinas dos mais diversos tipos, reconhecerão os mais inusitados aspectos de nosso comportamento. Então, vamos mesmo desejar que elas tomem decisões por nós, ou que nos ajude de maneira cooperativa a fazer isso?
E quando nossas casas prepararem tudo que gostamos e o que precisamos para viver, sempre que lá chegarmos (como vemos nos empolgantes vídeos de casas conceituais, mesmo sabendo que computação ubíqua não se restringe a isto) vamos desejar cada vez mais ficar perto delas, que serão grandes máquinas (ou grandes conjuntos de pequenas máquinas ).
Sendo assim, a dinâmica cíclica de proximidade e afastamento das grandes máquinas se encerrará, ou outra se iniciará, inspirando o desejo por máquinas que façam menos por nós?
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